Artigo do secretário adjunto Cláudio Ferreira Lima

29 de março de 2016 - 13:27

Artigo publicado no jornal O POVO, no último dia 27 de março

O interregno

Em “Estado de crise” (Rio de Janeiro: Zahar, 2016), dois sociólogos de renome internacional, Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni, fazem, como diz o prefácio, “uma análise original e nunca antes publicada da condição corrente da sociedade ocidental”.

Para eles, vivemos o que Gramsci denominou nos “Cadernos do cárcere” de “interregno”: o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer; e aí surge uma grande variedade de sintomas mórbidos. O termo, em sua origem, retrata a fase entre o rei morto e o rei posto.

A crise, fruto da globalização, é profunda, pois foram abaixo valores muito caros à humanidade, como o progresso linear e ilimitado do Iluminismo. E no interregno domina a “modernidade líquida” de Bauman, em que tudo é líquido, fluido, volátil, incerto e inseguro.

Bordoni considera que a crise veio para ficar; é preciso conhecer os seus mecanismos para definir novos campos de atuação e luta. Para Bauman, ela difere de todas porque ocorre sob o divórcio entre poder e política, e com isso não há “agências capazes de fazer o que toda ‘crise’, por definição, exige: escolher de que modo proceder e aplicar a terapia reclamada por essa escolha” (op. cit., p. 21-22).

Ora, o grosso do poder mais relevante é global, enquanto os instrumentos de ação política têm alcance apenas local. É certo que a distância entre poder e política varia com o peso geopolítico de cada país. Assim, o Brasil ainda possui razoável margem de manobra interna. Porém, se extrapolar, sofrerá consequências.

Como resolver essa contradição? Sob a interdependência global, é fora de lógica reatar poder e política, a não ser que esta última seja repensada em termos jamais vistos e que o Estado seja global.

Para Bauman, os canteiros de obras estão em processo de limpeza coletiva, e as futuras construções sobre uma multidão de pranchetas privadas. “As forças da limpeza de canteiros de obra parece terem crescido consideravelmente; a indústria da construção, contudo, está muito atrasada, e a distância entre sua capacidade e a extensão das obras continua a se expandir” (op. cit., p. 123).

Bauman é cauteloso: “Eu não estou preparado, temo, para visualizar (e muito menos desenhar uma planta) da ‘nova ordem global’”. “O máximo que podemos ousar é pensar nos obstáculos intransitáveis no caminho para o topo. Nas coisas que teremos que transpor ou remover do caminho se um dia nos couber alcançar o desfiladeiro para uma nova ordem” (op. cit., p. 177).

Estamos, pois, ante o desafio bíblico de atravessar o deserto com um povo preso ao consumismo, depois transpor a modernidade líquida para chegar a novos e sólidos tempos.

Cláudio Ferreira Lima