“Entranhas do Brasil”. Artigo de Cláudio Ferreira Lima publicado no O POVO

3 de fevereiro de 2016 - 19:22

É nela, na ralé que reside a nossa grande mazela, a principal fonte de violência social e o desafio maior a ser enfrentado

Para Milton Santos, o intelectual existe para criar o desconforto. É o que faz Jessé Souza, presidente do Ipea e doutor em sociologia pela Universidade de Heildelberg, Alemanha, com o polêmico “A tolice da inteligência brasileira ou como o país se deixa manipular pela elite” (São Paulo: LeYa, 2015).

Jessé Souza, inspirado nas ideias de Max Weber, concebe capitalismo e classe não só como sistema de relações econômicas e de trabalho, mas também como sistema de valores que legitima o ser e o estar de cada indivíduo.

Nessa linha, contesta os intérpretes do Brasil, em especial Sérgio Buarque de Holanda, autor de “Raízes do Brasil”, e, de igual modo, o patrimonialismo como coisa nossa, já que para ele não há no planeta Estado que não seja aprisionado pelo privado.

E, assim, penetra nas entranhas do país para desvelar a realidade encoberta pela “violência simbólica” dos “consensos sociais inarticulados” (não declarados), fruto tanto do culturalismo conservador, que naturaliza a desigualdade, quanto do economicismo, que a reduz à pura lógica econômica dos indicadores de distribuição de renda.

Para tal, faz a “crítica das ideias dominantes”, a partir da análise das classes sociais, que, exceto a alta, detentora do capital econômico, são montadas segundo não a renda, mas o lado humano e a capacidade de incorporar conhecimento.

Assim, a classe média, que é dona do capital cultural, tem socialização familiar, educação e privilégios daí decorrentes; a dos batalhadores está habilitada para o emprego formal, mas não possui capital cultural; e a que representa a verdadeira singularidade brasileira, a denominada ralé, que reúne cerca de 30% da população e sequer é vista como classe; desprovida de herança familiar e afetiva, sem preparo para o trabalho produtivo, é percebida de forma fragmentária e estigmatizada, a ponto de não ser visível o abandono a que se acha condenada.

É nela, na ralé que reside a nossa grande mazela, a principal fonte de violência social e o desafio maior a ser enfrentado com ações efetivas do governo e da sociedade que não se restrinjam aos fatores econômicos,mas que vão além, contribuindo para recompor laços de família e resgatar autoestima de humilhados e ofendidos.
Como afirma José Murilo de Carvalho (Fundamentos da política e da sociedade brasileira. In: AVELAR, Lúcia; CINTRA, Antônio Octávio (Org.). Sistema político brasileiro: uma introdução. Rio de Janeiro: Konrad-Adenauer-Stiftung; São Paulo: Unesp, 2007, p. 30), o grande desafio dos brasileiros é reduzir “a desigualdade (o equivalente à escravidão do século 19) que nos separa e a violência que nos amedronta”. Por isso, “se faz necessário envolvimento cada vez maior dos cidadãos na política e recuperação da crença nas instituições representativas, abalada por práticas antirrepublicanas”.

Cláudio Ferreira Lima
claudioflster@gmail.com
Economista