(Des)Industrialização brasileira

24 de junho de 2015 - 12:19

Artigo do secretário adjunto da SDE, Cláudio Ferreira Lima, publicado no jornal O POVO

A história econômica registra três padrões de industrialização: o da Inglaterra, que, com a 1ª Revolução Industrial, na segunda metade do século 18, partiu na frente; o retardatário, na segunda metade do século 19 (2ª Revolução Industrial), que se espalhou na Europa e chegou à América do Norte e Ásia; e o tardio, no século XX, que alcançou países latino-americanos, africanos e asiáticos.

No Brasil, entre 1930, que marca o fim da hegemonia agro-exportadora e o começo do domínio urbano-industrial (embora, somente em 1956, se materialize em participação no PIB), e 1980, a indústria evoluiu a elevadas taxas, colocando o país como 8º no ranking econômico mundial.

Entre 1970 a 1985, quando a indústria na China e na Coreia do Sul era pouco representativa, o Brasil, que possuía o maior parque manufatureiro da América Latina, participava com cerca de 2,5% na indústria mundial, índice à época bem superior ao de qualquer outro país em desenvolvimento.

Claro que havia assimetrias, fruto da própria formação econômica do país, que concentrou a produção no Sudeste e, principalmente, em São Paulo.

A partir dos anos 1980, já sob a globalização, a crise da dívida externa, o déficit público elevado e a inflação galopante conduziram à política ortodoxa de ajuste e de abertura comercial com enormes prejuízos ao processo de industrialização brasileira. Somam-se a isso, mais recentemente, a crise de 2008 e as incertezas geopolíticas. Sem contar a valorização cambial que, há mais de uma década, tanto facilita a entrada de produtos importados quanto dificulta a conquista de mercado externo.

Assim, assistimos ao estancamento da industrialização, justo na fase de incorporação dos ramos tecnologicamente mais avançados, que não só aumentam a produtividade e a competitividade do setor, mas também transmitem, por meio dos encadeamentos, o dinamismo e a inovação a toda a matriz econômica do país.

Houve tentativas de reverter essa tendência: Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), de 2004; Política de Desenvolvimento Produtivo – PDP, de 2008; e Plano Brasil Maior – PBM, de 2008. Nenhuma delas, porém, teve sucesso, mas sem elas, certamente, a situação poderia ser mais crítica ainda.

Há um quadro de desindustrialização em que a financeirização da economia vem asfixiando o setor produtivo. Que fazer?

Ora, antes de tudo, é vital que a economia brasileira reencontre o crescimento e o desenvolvimento; porém, nada disso ocorrerá sem que se retome a industrialização.

É preciso, no âmbito interno, alinhar a política macroeconômica com a industrial, a fim de promover os ramos dinâmicos, intensivos em conhecimento, a qualificação da mão de obra e a qualidade dos serviços e da infraestrutura logística do setor. Ao mesmo tempo, é a ocasião para reduzir as desigualdades regionais.

No âmbito externo, é imprescindível rever a política cambial e celebrar acordos comerciais para a inserção competitiva do país nas cadeias produtivas globais.

Fora disso, o horizonte será sombrio.

Cláudio Ferreira Lima